DLT05112 · Estudos Literários II · Aula 10 · 14/10/2026

Como analisar narrativas

Os elementos da narrativa segundo Cândida Vilares Gancho, com “Felicidade clandestina” na mesa.

Enredo Personagens Tempo Espaço Narrador
GANCHO, Cândida Vilares. Como analisar narrativas. 9. ed. São Paulo: Ática, 2006.
Ponto de partida

Toda história responde a cinco perguntas

1O que acontece?
1
Enredo
os fatos e o conflito que os organiza
2Quem vive os fatos?
2
Persona­gens
quem age ou fala na história
3Quando?
3
Tempo
época, duração, ordem
4Onde?
4
Espaço
o lugar e o ambiente que ele cria
5Quem conta?
5
Narrador
quem organiza todos os outros

Em Gancho: “O que aconteceu? Quem viveu os fatos? Como? Onde? Por quê?”

Gancho, cap. 1, “Histórias”
O elemento que organiza

Sem narrador, não há conto

Do lado de cáo autor, que inventa, e o leitor, que recebe
Do lado de láa história: o que aconteceu, com quem, quando e onde
Narradorintermediário entre a história, o autor e o leitor
Enredo
Tempo
Espaço
Personagens

No teatrotambém há fatos, personagens, tempo e espaço. Falta o narrador.

Gancho, cap. 2, “Elementos da narrativa”
Enredo

O que dá vida ao enredo é o conflito

Chapeuzinho Vermelho sem o Lobo Mau
O Patinho Feio sem a feiura
Cinderela sem a meia-noite

Conflito é qualquer componente da história (personagens, fatos, ambiente, ideias, emoções) que se opõe a outro, criando uma tensão que organiza os fatos e prende a atenção do leitor.

entre personagenspersonagem × ambientemoralreligiosoeconômicopsicológico
Gancho, cap. 2, “Partes do enredo”
Enredo

As partes do enredo

Dica de Gancho: comece pelo clímax, o momento de maior tensão. As outras partes existem em função dele.

Exposiçãofatos iniciais, personagensA falta: a menina quer ler e não tem livros.
Complicaçãoo conflito se desenvolveA promessa vira armadilha: “que eu voltasse no dia seguinte”.
Clímaxa tensão no ponto máximoA mãe: “este livro nunca saiu daqui de casa”.
Desfechoo conflito se resolve, ou nãoLivro sem prazo, leitura adiada: a felicidade “clandestina”.
Gancho, cap. 2 · notas em azul: Clarice Lispector, “Felicidade clandestina”
Enredo

Verossimilhança: cada fato tem uma causa e provoca outro

Causa

A filha do livreiro diz que tem o livro e promete emprestar.

→
Fato

A menina vai à casa dela e ouve: “que eu voltasse no dia seguinte”.

→
Consequência

A recusa diária leva a mãe a estranhar a menina à porta.

→
Consequência

A mãe descobre a mentira e manda emprestar.

↻ “Quanto tempo? Não sei.”

Os fatos não precisam ser verdadeiros. Precisam ser verossímeis: o leitor acredita porque a lógica interna se sustenta.

Gancho, cap. 2, “Verossimilhança”
Enredo psicológico

Quando os fatos acontecem por dentro

Gancho dá o exemplo de “Amor”, de Clarice: poucos fatos exteriores, muitos fatos emocionais. O fim de “Felicidade clandestina” funciona igual.

O que se vê

  • pega o livro
  • sai andando devagar
  • chega em casa
  • senta na rede

O que acontece

  • “Eu estava estonteada”
  • “Meu peito estava quente, meu coração pensativo.”
  • “Fingia que não o tinha”
  • “em êxtase puríssimo”

Nos dois casos, o enredo psicológico tem conflito, partes e verossimilhança. Pode ser analisado como qualquer enredo.

Gancho, cap. 2, “Enredo psicológico” · Clarice Lispector, “Felicidade clandestina”, f. 2
Personagens

Dois eixos: o papel no enredo e a caracterização

Plana · poucos traços
Redonda · muda, é complexa
Protagonistaherói ou anti-herói
A narradoramuda até o jeito de andar
Antagonistaopõe-se ao protagonista
A filha do livreirosem nome, “pura vingança”
Secundáriaajuda, confidente, figurante
A mãedesfaz a mentira

Planos mais conhecidos: o tipo (o estudante, a dona de casa) e a caricatura (traços fixos e ridículos).

Gancho, cap. 2, “Classificação dos personagens”
Personagens

Caracterizar: o que o texto diz de cada um

“Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente cresposF […] Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livrariaS. […] Mas que talento tinha para a crueldadeP. […] Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismoM.”

Ffísica: corpo, voz, gestos, roupa
Ppsicológica: personalidade, estado de espírito
Ssocial: classe, profissão
Iideológica: o texto não dá. Também é resposta.
Mmoral: o julgamento de quem narra
Gancho, cap. 2, “Personagens redondos” · Clarice Lispector, “Felicidade clandestina”, f. 1
Tempo

O tempo tem níveis

Épocao pano de fundo: a infância da narradora
Duraçãoquanto tempo a história cobre
Cronológicona ordem natural dos fatos
Psicológicona ordem do desejo e da memória; o flashback

Linhas da cópia de sala gastas em cada momento

24 linhassemanas de idas e recusas
16 linhasalguns minutos à porta, com a mãe
18 linhasalgumas horas com o livro

A adulta salta para a frente: “Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do ‘dia seguinte’ com ela ia se repetir com meu coração batendo.”

Gancho, cap. 2, “Tempo”: comece levantando os índices de tempo do texto
Espaço e ambiente

O espaço é o lugar. O ambiente é o lugar carregado

Espaçolugar físico
+
Tempoépoca
+
Climasocioeconômico, moral, religioso, psicológico
=
Ambientesitua, projeta, opõe, anuncia
Sobrado × casa

diferença social, dita de passagem

Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa.
A porta

o limite que a menina não atravessa

Não me mandou entrar.
A rede

o lugar da felicidade escondida

balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo
Gancho, cap. 2, “Espaço” e “Ambiente” · Clarice Lispector, “Felicidade clandestina”, f. 1-2
Narrador

Quem conta, e de onde

Narrador não é autor

3ª pessoa · fora dos fatosObservador

  • onisciente: sabe tudo
  • onipresente: está em todo lugar
  • intruso: fala com o leitor, julga
  • parcial: toma o partido de alguém

1ª pessoa · dentro dos fatosPersonagem

  • testemunha: viu, sem ser o centro
  • protagonista: conta a própria história
  • visão limitada: não sabe tudo

“Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho.”

então: a meninaagora: a adulta que conta
Gancho, cap. 2, “Narrador” · Clarice Lispector, “Felicidade clandestina”, f. 1-2
Tema · assunto · mensagem

Comece pelo assunto, que é o mais concreto

Assunto

substantivo concreto: o enredo bem resumido

“Passeio noturno”: um homem rico que sai de carro para matar pessoas na rua, para relaxar.

Uma menina volta todo dia à porta de quem prometeu um livro e não empresta.

Tema

substantivo abstrato: a ideia por trás do assunto

“Passeio noturno”: a violência.

?
Uma palavra.

Mensagem

uma frase: o que o texto leva o leitor a pensar

“Passeio noturno”: a violência está onde não se espera que esteja.

?
Uma frase. Não precisa ser uma moral.

Gancho, cap. 3 e cap. 5 (exemplo de Rubem Fonseca, “Passeio noturno”) · em azul: “Felicidade clandestina”
Discursos

Como a fala da personagem entra no texto

Direto

a fala inteira, como foi dita

Ela andava e pensava:
— Droga! Estou tão cansada!

Indireto

o narrador conta o que foi dito, com que e se

Ela andava e pensava que a vida era uma droga e que estava cansada.

Indireto livre

a voz da personagem dentro da frase do narrador

Ela andava. Droga! Estava tão cansada!

Direto, sem travessão nem aspasexclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler!
IndiretoPara ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte.
Gancho, cap. 4, “Discursos” · Clarice Lispector, “Felicidade clandestina”, f. 1-2
Do livro para a ficha

O roteiro de Gancho cabe na ficha de análise

Roteiro de análise (Gancho, cap. 5)

  1. Antes: ler, anotar, registrar a primeira impressão
  2. Enredo: partes e conflitos
  3. Personagens, tempo, ambiente, narrador
  4. Tema, assunto, mensagem · discurso
  5. Opinião crítica
→

Ficha de Análise Estrutural

  1. A. O que acontecesequência de ações · enredo
  2. B. Como é contadopersonagens, narrador, focalização, tempo, espaço
  3. C. Síntesemodo de contar · termo · pergunta

A opinião crítica pode ser favorável ou não; em qualquer caso, sustentada com argumentos e trechos do texto.

Gancho, cap. 5, “Roteiro de análise”
Mais um conto · Rubem Fonseca

“Passeio noturno”, do começo ao fim

O exemplo que a própria Gancho analisa no cap. 5: sete parágrafos, uma noite.

§1
§2
§3
§4
§5
§6
§7
Exposição§1

Cheguei em casa (…) você precisa aprender a relaxar. O homem e a família.

Complicação§2 ao meio do §5

Fui para a biblioteca (…) o alívio era maior. O tédio da casa e a saída de carro.

Clímaxmeio do §5 ao fim

Então vi a mulher (…) de casa de subúrbio. O atropelamento.

Desfecho§6 e §7

Examinei o carro (…) na companhia. A volta para casa.

Gancho, cap. 5, “Partes do enredo” · Rubem Fonseca, “Passeio noturno — Parte I”, em Feliz Ano Novo (1975)
Mais um conto · Rubem Fonseca

O mesmo roteiro, outro narrador

Personagem

Gordo, tenso, frio, indiferente à família e às vítimas. Acredita no poder e no dinheiro.Para a mulher: cidadão acima de suspeita

Em Clarice, a caracterização ideológica ficou vazia.

Tempo

Cronológico: chega, janta, sai, volta, vai dormir. Uma noite, sem flashback.

Em Clarice, a adulta salta para a frente no tempo.

Ambiente

Burguês, urbano, atual: o Rio de Janeiro da Avenida Brasil.Clima: frieza, tensão, violência

Em Clarice, sobrado × casa: a diferença social dita de passagem.

Narrador

Primeira pessoa, protagonista. Conta o crime no mesmo tom do jantar.

Em Clarice, duas idades na mesma voz.

Gancho, cap. 5, “Questões específicas” · em azul: “Felicidade clandestina”
Discurso · ponte para Piglia

Uma noite, duas histórias

Discurso direto sem travessão nem aspas, como em ClariceVocê não vai largar essa mala? perguntou minha mulher, tira essa roupa, bebe um uisquinho, você precisa aprender a relaxar.

A que se vê

Jantar servido à francesa, filhos pedindo dinheiro, a novela.

A que se esconde

O passeio de carro, que a família não vê.

A mulher pergunta pela segunda sem saber dela: “Deu a sua voltinha, agora está mais calmo?”

Gancho, cap. 5, “Discursos” · Rubem Fonseca, “Passeio noturno — Parte I”, §1 e §7
Daqui para Genette

Gancho pergunta: quem conta?

“A felicidade sempre iria ser clandestina para mim.”

Quem fala?a voz: quem narra, e quando narra
Quem vê?a perspectiva: por quais olhos a história é percebida

A seguir: análise completa de Machado (“O espelho”) e de Rosa (“A terceira margem do rio”); quadro comparativo só ao final. Genette e Piglia ficam como vocabulário de apoio.

Clarice Lispector, “Felicidade clandestina”, f. 2 · GENETTE, Discurso da narrativa