DLT05112 · Estudos Literários II · Aula 10 · laboratório

Elementos estruturais nos contos

Depois de Gancho: um conto de cada vez. Análise completa. Comparação só no fim.

Assis, “O espelho” · Rosa, “A terceira margem do rio”
Roteiro

Três tempos

1
Livro de Gancho — perguntas e vocabulário.
Deck anterior
2
Análise completa de “O espelho”.
Machado
3
Análise completa de “A terceira margem do rio”.
Rosa

Cada bloco fecha em si. O quadro comparativo vem depois dos dois.

Aula 10 · laboratório
Machado de Assis

O espelho

Esboço de uma nova teoria da alma humana
Papéis avulsos (1882)

Cópia de sala · domínio público
O espelho · Assunto

Uma noite de metafísica e uma crise de alferes

No salão de Santa Teresa, Jacobina sustenta que o homem tem alma interior e alma exterior. Para provar, conta o que lhe aconteceu quando a farda e o espelho passaram a mandar nele.

Assunto (concreto): a nomeação de alferes, a solidão na casa da tia, o espelho.
Tema (em jogo): a identidade que depende do outro — e do objeto que a segura.

Gancho: tema · assunto · mensagem
O espelho · Enredo

Sequência de ações

1
No salão, Jacobina expõe a tese das duas almas.
Exposição
2
É nomeado alferes; a casa e a vila o celebram; a farda ocupa o centro.
Elevação
3
Vai à casa da tia Marcolina, no sítio; fica só com o pajem — e depois sem ele.
Isolamento
4
A alma exterior minguia; o relógio e a solidão o corroem.
Prova
5
Olha o espelho, veste a farda, recupera a figura — e volta ao salão com o caso.
Reparação / relato

“A alma exterior pode ser um espírito, um fluido, um homem, muitos homens, um objeto, uma operação.”

Assis, “O espelho”
O espelho · Conflito

O que dá vida ao enredo

A falta não é de aventura externa. É de imagem. Sem olhares que o confirmem e sem a farda, Jacobina quase deixa de ser.

homem × imagem alma interior × alma exterior ser × parecer

O espelho não é cenário: é o campo de batalha do conflito.

Gancho: “O que dá vida ao enredo é o conflito”
O espelho · Partes do enredo

Situação · complicação · clímax · desfecho

Parte
No conto
Situação
Salão em Santa Teresa; tese das duas almas; nomeação de alferes e festa da casa.
Complicação
Sítio da tia; solidão; a alma exterior se reduz ao mínimo.
Clímax
Diante do espelho, a figura do alferes ameaça sumir — ou volta com a farda.
Desfecho
O relato no salão fecha a prova: a tese ganha corpo na vida contada.
Gancho, “Partes do enredo”
O espelho · Personagens

Papel no enredo e caracterização

Papel

  • Jacobina — protagonista; teórico e paciente da própria tese
  • Tia Marcolina — auxilia o isolamento
  • Pajem — última companhia humana que some
  • Farda / espelho — quase agentes: sustentam a alma exterior

Caracterização

  • Jacobina: provinciano, capitalista, cáustico, sem discutir
  • Vira “exclusivamente alferes” em três semanas
  • A caracterização ideológica passa pelo uniforme e pelo olhar alheio
Gancho: personagens
O espelho · Narrador

Quem conta, e de onde

Narrador em primeira pessoa, dentro da história: Jacobina fala no salão, já seguro, e usa a crise antiga como prova.

Há dois tempos na voz: o agora do debate e o então do sítio. O presente comenta a alma do passado.

A história não é confessada por acaso: é argumento. Contar é demonstrar.

Gancho: narrador
O espelho · Tempo e espaço

Onde a duração aperta

Tempo

  • Uma noite de salão enquadra tudo
  • A crise no sítio: dias e semanas
  • Ritmo: a solidão alonga; o espelho concentra

Espaço e ambiente

  • Salão em Santa Teresa — velas, luar, metafísica
  • Sítio escuso da tia — isolamento
  • O espelho: lugar decisivo; ambiente de angústia e restauração
Gancho: tempo · espaço e ambiente
O espelho · Para a ficha

Evidência e pergunta

“A alma exterior pode ser um espírito, um fluido, um homem, muitos homens, um objeto, uma operação.”

Marca: a tese antecipa o enredo. A farda será o “objeto”.

Pergunta: sem o outro e sem a farda, sobra alma interior?

Fecha o bloco Machado — em seguida, Rosa
João Guimarães Rosa

A terceira margem do rio

Primeiras estórias (1962)

Cópia de sala · uso exclusivo em aula
Rosa · Assunto

Um pai ordeiro que não volta da canoa

O narrador lembra o pai — cumpridor, positivo — pedindo uma canoa, entrando no rio e ficando no meio, anos a fio, sem explicar.

Assunto (concreto): a canoa, a beira, a comida furtada, a família que se dispersa.
Tema (em jogo): a ausência escolhida e o que ela faz em quem fica.

Gancho: tema · assunto · mensagem
Rosa · Enredo

Sequência de ações

1
O pai, “ordeiro, positivo”, manda fazer uma canoa de vinhático.
Preparação
2
Despede-se sem matula; a mãe brada; ele suspende a resposta e entra no rio.
Ruptura
3
Permanece de meio a meio; não salta nunca mais.
Estado
4
Anos: comida na pedra, irmãos que partem, mãe que se vai; o filho fica.
Prova longa
5
O filho chama o pai; o pai acena; o filho treme e falha — silêncio.
Desfecho aberto

“Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais.”

Rosa, “A terceira margem do rio”
Rosa · Conflito

O que dá vida ao enredo

A falta é de explicação. O pai executa um ato sem motivo dito; a família vive a consequência sem nome que a feche.

presença × ausência beira × meio do rio falar × calar

O conflito não explode numa cena de briga: ele se instala e dura.

Gancho: conflito
Rosa · Partes do enredo

Situação · complicação · clímax · desfecho

Parte
No conto
Situação
Família na fazenda; pai testemunhado como ordeiro e positivo.
Complicação
A canoa; o adeus; a permanência no meio do rio.
Clímax
O filho, já homem, chama o pai à margem — e treme diante do gesto.
Desfecho
Ninguém soube mais dele. O narrador fica com o falimento e o silêncio.
Gancho, “Partes do enredo”
Rosa · Personagens

Papel no enredo e caracterização

Papel

  • Pai — agente da ruptura; depois, presença muda
  • Filho — narrador-testemunha; carrega a comida e a culpa
  • Mãe — tenta ordenar a casa; brada no adeus
  • Rio — mais que cenário: limita e define a ação

Caracterização

  • Pai: plano por fora (“positivo”); enigma por dentro
  • Filho: “homem de tristes palavras”
  • Quase não há psicologia explicada — há gesto e duração
Gancho: personagens
Rosa · Narrador

Quem conta, e de onde

Narrador em primeira pessoa: o filho, anos depois. Não explica o pai; registra o que sobrou.

A voz é de quem ficou na beira. O centro da história — o pai no meio do rio — é visto de longe, quase sem acesso.

“Sou o que não foi, o que vai ficar calado.”

Contar aqui não demonstra uma tese: testemunha um falimento.

Gancho: narrador
Rosa · Tempo e espaço

Onde a duração se estica

Tempo

  • Anos: “devagar depressa dos tempos”
  • A entrada na canoa quase sem duração medida
  • A espera do filho é o tempo que o conto realmente conta

Espaço e ambiente

  • Fazenda, beira, pedra da comida
  • Meio do rio — fora do mapa familiar
  • A “terceira margem” nomeia um lugar que não se pisa

“Nosso pai suspendeu a resposta.” Depois: “suspendia no liso do rio.”

Gancho: tempo · espaço e ambiente
Rosa · Para a ficha

Evidência e pergunta

“Cê vai, ocê fique, você nunca volte!” Nosso pai suspendeu a resposta.

Marca: o conflito fala na mãe; o pai responde com ausência.

Pergunta: a terceira margem é lugar ou decisão?

Fecha o bloco Rosa
Depois dos dois

Quadro comparativo

Só agora — com as duas análises já feitas — cruzamos as respostas.

Pergunta
O espelho
A terceira margem
Conflito
Homem × imagem / alma exterior
Presença × ausência / sem motivo dito
Clímax
O espelho e a farda
O filho chama; treme
Narrador
Jacobina prova a tese no salão
O filho testemunha o falimento
Tempo
Crise curta numa noite de relato
Anos de espera
Espaço
Salão / sítio / espelho
Beira e meio do rio
Desfecho
A tese se fecha no relato
O silêncio fica aberto
Comparação final · não substitui as fichas de cada conto
Fechamento

Duas análises, depois o quadro

Pergunte ao texto o que ele faz — não só o que ele conta.

Próximo passo: uma ficha por conto, com evidência; Genette (voz e perspectiva) na sequência da disciplina.

DLT05112 · Aula 10 · Gancho → Espelho → Rosa → quadro